O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO

O batismo no Espírito Santo é uma experiência de revestimento de poder, distinta da regeneração e evidenciada pelo falar em outras línguas, com o objetivo principal de capacitar os crentes regenerados para testemunhar de Jesus.

O batismo no Espírito é claramente mencionado no Novo Testamento. João Batista profetizou o batismo no Espírito Santo: “Eu batizo vocês com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de carregar as sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11).

O próprio Jesus anunciou o batismo no Espírito Santo, se referindo a ele como a promessa do Pai: “E, comendo com eles, deu-lhes esta ordem: — Não se afastem de Jerusalém, mas esperem a promessa do Pai, a qual vocês ouviram de mim. Porque João, na verdade, batizou com água, mas vocês serão batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias” (At 1.4,5).

O batismo no Espírito Santo foi claramente definido por Jesus como um revestimento de poder espiritual:

Eis que envio sobre vocês a promessa de meu Pai; permaneçam, pois, na cidade, até que vocês sejam revestidos do poder que vem do alto. (Lc 24.49)

Mas vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo, e serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra. (At 1.8)

O cumprimento da promessa citada por Jesus, que é o batismo no Espírito Santo, foi registrado em Atos 2.1-4:

Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem. (At 2.1-4)

Conforme o relato acima, ao receber o batismo de poder, os discípulos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas.

O Batismo no Espírito Santo, a Regeneração e a Evidência Inicial

A promessa do Pai, que é o batismo no Espírito Santo, não se trata da regeneração. Quando foi derramado por Jesus (At 2.33) os discípulos já tinham o Espírito (Jo 20.22), mas não estavam ainda revestidos de poder.

Em Samaria, quando o Espírito Santo foi derramado sobre os discípulos eles já tinham sido batizados em águas (At 8.12). Filipe não batizaria ninguém em águas que não tivesse recebido a Palavra e crido em Jesus (At 8.14), e consequentemente já regenerado. Sobre este fato João Calvino afirma em seu comentário de Atos 8.16-17, que:

Portanto, não devemos negar, mas que os samaritanos, que se revestiram de Cristo, na verdade, no batismo, também tiveram seu Espírito dado a eles; e certamente Lucas não fala neste lugar da graça comum do Espírito, por meio da qual Deus nos regenera, para que sejamos seus filhos, mas daqueles dons singulares com os quais Deus certamente os proveu no início do evangelho para embelezar o reino de Cristo. […] Para concluir, visto que os samaritanos já estavam dotados com o Espírito de adoção, as excelentes graças do Espírito são amontoadas sobre eles, nas quais Deus mostrou à sua Igreja, por um tempo, por assim dizer, a presença visível de seu Espírito, que ele pode estabelecer para sempre a autoridade de seu evangelho e também testificar que seu Espírito será sempre o governador e diretor dos fiéis.[1]

É clara a afirmação de Calvino que o que aconteceu em Atos 8.16-17 foi uma experiência distinta da regeneração (ou do novo nascimento), e que a vinda visível do Espírito se relacionou com a manifestação de “dons singulares”. O falar em línguas está com certeza implícito nesse recebimento do Espírito.

Sobre o batismo no Espírito Santo e o episódio do recebimento do Espírito em Samaria, o teólogo calvinista Martyn Lloyd-Jones declara que:

Não devemos interpretar as Escrituras à luz de nossas vivências, mas devemos examinar nossas experiências à luz do ensino das Escrituras. […] Afirmar que todo homem regenerado é necessariamente batizado com o Espírito Santo, é simplesmente ir contra o ensino claro e explícito das Sagradas Escrituras. […] Em todos esses casos, foi depois que eles foram regenerados, que as mãos foram colocadas sobre eles e então receberam o batismo do Espírito Santo (At 8 e 19). […] No versículo 17, lemos: “Então, lhes impunham as mãos, e recebiam estes o Espírito Santo”. Agora, isso é interessante, o versículo seguinte diz assim: “Vendo, porém, Simão que, pelo fato de imporem as mãos, era concedido o Espírito [Santo]” – era algo que ele podia ver – “ofereceu-lhes dinheiro”.[2]

Paulo Anglada, também calvinista, diz:

De modo geral, os intérpretes reformados compreendem a descida do Espíritos sobre os samaritanos, não com referência à obra de regeneração, nem como uma segunda bênção ordinária do Espírito. […] Outros intérpretes reformados, como, por exemplo, Martyn Llloyd-Jones, veem a descida do Espírito entre os samaritanos, assim como aconteceu em Pentecostes e se repetiria na casa de Cornélio, sob duas óticas. […] Do ponto de vista da experiência espiritual humana, entretanto, trata-se de um revestimento de poder de Deus, decorrente de uma consciência mais profunda do seu amor e das realidades espirituais, que capacita extraordinariamente o crente para o testemunho cristão em épocas soberanas de reavivamentos espirituais. […].[3]

Houve uma clara evidência do recebimento do Espírito (ou batismo no Espírito Santo) em Samaria.

Mesmo discordando de alguns posicionamentos pentecostais, sobre tal evidência, diz Kistemaker: “Quando os samaritanos receberam o Espírito Santo, a sua presença se tornou evidente por meio de sinais exteriores […]”.[4]

Como se pode perceber, mesmo com algumas diferenças de interpretação sobre o assunto, no próprio contexto reformado calvinista se ensina a distinção entre o que nós pentecostais (e a Bíblia) chamamos de batismo no Espírito Santo e a regeneração espiritual.

Para o teólogo pentecostal French L. Arrington:

Estas pessoas foram salvas e batizadas nas águas em nome do Senhor Jesus, mas só receberam a plenitude pentecostal do Espírito depois que Pedro e João impõem as mãos sobre elas e oram. […] Como crentes, eles já têm fé em Cristo e são habitados pelo Espírito Santo como fonte de salvação, amor e alegria. Pedro e João não questionam a qualidade da fé, mas o recebimento da plenitude do Espírito como experiência distinta e subsequente ao recebimento da salvação. Esta experiência dos samaritanos mostra que as pessoas podem crer em Cristo, ser batizadas nas águas e não ser dotadas com o poder do Espírito. A narrativa samaritana nos confronta com uma clara separação cronológica entre a crença dos samaritanos e a submersão deles no Espírito.[5]

A conversão de Paulo é registrada em Atos 9.1-9, mas é no versículo 17 que ele recebe a imposição de mãos de Ananias, para então ser cheio do Espírito Santo.

Na casa do centurião Cornélio, durante a pregação de Pedro, o Espírito Santo caiu sobre todos os que ouviam a palavra (At 10.44), e começaram a falar em línguas (v. 45-47). Neste caso, a regeneração aconteceu simultaneamente (ou quase), mas distintamente do batismo no Espírito Santo.

Em Éfeso, os discípulos foram batizados em águas em nome de Jesus (At 19.4-5), para somente após, pela imposição de mãos de Paulo, o Espírito vir sobre eles, que passaram a falar em línguas e a profetizar (v. 6,7). Os discípulos não seriam batizados em águas sem ser regenerados.

Em todos os episódios aqui citados, está claro que o batismo no Espírito Santo (revestimento de poder) é uma experiência distinta da regeneração. Em todos eles, o falar em línguas está explícito ou implícito como a evidência inicial do batismo no Espírito Santo.

O Batismo no Espírito Santo foi uma Promessa para a Igreja em todas as Épocas

Diferente do que alguns teólogos cessacionistas ensinam, o batismo no Espírito Santo é uma promessa também para os dias atuais. O apóstolo Pedro respondeu claramente para os seus ouvintes: “Porque a promessa é para vocês e para os seus filhos, e para todos os que ainda estão longe, isto é, para todos aqueles que o Senhor, nosso Deus, chamar” (At 2.39).

Não se trata aqui, como alguns afirmam, que a promessa foi apenas para os filhos, para os que estão longe e para os que seriam chamados pelo Senhor apenas daquela geração. Não há nenhuma evidência bíblica que prove que o batismo no Espírito Santo, assim como todos os dons espirituais, deixaria de ser concedido aos cristãos antes da volta de Jesus.

Se em alguns momentos na história da Igreja não houve tantas experiências e manifestações espirituais legítimas, foi em razão de falsos ensinos, negligência ou de atitudes que entristeceram e apagaram o Espírito (1 Co 14.39; Ef 4.30; 1 Ts 5.19,20).

Bibliografia Sugerida

ANDRADE, Claudionor Corrêa. Fundamentos bíblicos de um autêntico avivamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

ARAUJO, Isael. História do movimento pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2016.

BRAND, Chad Owen (E.). Batismo no Espírito Santo: um debate entre as tradições. Natal, RN: Editora Carisma, 2019.

BROW, Michael L. Fogo autêntico: uma resposta aos críticos do cristianismo pentecostal-carismático. Cuiabá, MT: Editora Palavra Fiel, 2020.

CABRAL, Elienai. Movimento pentecostal: as doutrinas da nossa fé. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.

CONDE, Emílio. Pentecostes para todos. Rio de Janeiro: CPAD, 1985.

DANIEL, Silas. O batismo no Espírito e as línguas como sua evidência. Rio de Janeiro: CPAD, 2020.

DEERE, Jack. Surpreendido pelo poder do Espírito. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.

GEE, Donald. Como receber o batismo no Espírito Santo. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.

GERMANO, Altair. Batismo no Espírito Santo: coleção pentecostal. Cuiabá, MT: Editora Palavra Fiel, 2019.

GILBERTO, Antonio. Verdades pentecostais. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

GONÇALVES, José. Rastros de fogo: o que diferencia o pentecostalismo bíblico do neopentecostalismo atual? Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

HORTON, Stanley M. O que a Bíblia diz sobre o Espírito Santo. Rio de Janeiro: CPAD, 1993.

HYATT, Eddie. 2000 anos de cristianismo carismático. Natal, RN: Editora Carisma, 2018.

OLIVEIRA, Raimundo F. de. A doutrina pentecostal hoje. Rio de Janeiro: CPAD, 1982.

McGEE, Gary (E.) Evidência inicial. Natal, RN: Editora Carisma, 2017.

MENZIES, Robert. Glossolalia. Natal, RN: Editora Carisma, 2019.

PALMA, Anthony D. O batismo no Espírito Santo e com fogo. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.

PETRUS, Lewi. O vento sopra onde quer. Rio de Janeiro: CPAD, 1982.

SMITH, James. K. A. Pensando em línguas: contribuições pentecostais para a filosofia cristã. Rio de Janeiro: Thomas Nelson do Brasil, 2020.

SYNAN, Vinson. O século do Espírito Santo. São Paulo: Editora Vida, 2009.

SYNAN, Vinson. Vozes do pentecoste. São Paulo: Editora Vida, 2012.

STRONSTAD, Roger. A teologia carismática de Lucas. Rio de Janeiro: CPAD, 2018.


[1] Calvino, João . Comentários Bíblicos de João Calvino (Novo Testamento): (com Índice Ativo) (p. 3684). Edição do Kindle.

[2] LLOYD-JONES, Martyn. O batismo e os dons do Espírito. 2. ed. Tradução de João Costa. Natal, RN: Editora Carisma, 2020, p. 28,41,53,68.

[3] ANGLADA, Paulo. Atos: o avanço do evangelho na Judeia e Samaria. Ananindeua, PA: Knox Publicações, 2016, p. 30,31.

[4] KISTEMAKER, Simon. Atos: comentário do Novo Testamento. 2. ed. V. 1. Tradução de Ézia Mullis e Neuza Batista da Silva. São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 387.

[5] ARRINGTON, French L. Atos dos Apóstolos. In: ARRINGTON, French L.; STRONSTAD, Roger. Comentário bíblico pentecostal: Novo Testamento. Tradução de Luís Aron de Macedo e Degmar Ribas Júnior. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 669.

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