Sobre a Possibilidade de Escribas Adequarem Textos da Septuaginta às Citações do AT Presentes no NT

Na obra Convite à Septuaginta (Karen H. Jobes; Moisés Silva, Vida Nova, 2024, p. 259), ao tratar do Novo Testamento como fonte para a crítica textual da Septuaginta, os autores chamam a atenção para o fato de que na versão da Septuaginta editada por Alfred Rahlfs (ed. 2006, Rahlfs-Hanhart), em vez de seguir o texto grego do Códice Vaticano (B), Códice Marcaliano (Q) e a recensão Catena (C), cuja a variante em Oseias 2.1 resultaria na tradução “eles também (eles mesmos) serão chamados filhos do Deus vivo”, Rahlfs segue uma variante que se assemelha à citação de Paulo em Romanos 9.26, “aí (ali eles) serão chamados filhos do Deus vivo”.

Dessa forma, os eruditos Jobes e Silva, que não são opositores da Septuaginta, de forma honesta levantam a seguinte questão:

“Podemos simplesmente tomar por certo que a leitura em questão já estava presente no texto usado por Paulo? Ou é possível que essa variante tenha se originado no próprio Paulo e que manuscritos posteriores da LXX tenham sido influenciados por aquilo que ele fez?”.

E concluem:

“Precisamos lembrar que os escribas que copiaram os manuscritos ainda existentes da LXX eram, em sua maior parte, cristãos que conheciam os escritos do NT. Quando no processo de produzir um manuscrito do AT grego, chegavam a uma passagem citada no NT, por vezes AJUSTAVAM O TEXTO sem querer (por se recordarem da forma no NT) ou de propósito (porque tomavam por certo que a forma no NT era a correta).

No decorrer da obra, os autores parecem entrar em certa contradição. Afinal, como defender as supostas citações da Septuaginta feitas pelos escritores do NT, afirmando ao mesmo tempo que escribas cristãos fizeram mudanças na mesma buscando harmonizações com as citações presentes no NT? Dos muitos problemas da Septuaginta, agrega-se aqui para os que defendem a possibilidade das citações, o de saber quais seriam em meio a essas as alterações/harmonizações escribais.

Sobre o uso do AT em Mateus, a obra de Robert Gundry (ibid., p. 264) revela complicações que não deveriam se prestar a generalizações fáceis, visto que “de aproximadamente oitenta citações formais e alusivas do AT nesse Evangelho, cerca de trinta seguem claramente a leitura da Septuaginta” (e as cinquenta restantes seguem que leitura?).

Como já sugerido pelos autores de Convite à Septuaginta, os escribas não teriam alterado o texto da Septuaginta, seguindo mais uma vez leituras do NT, e no caso aqui, essas cerca de trinta citações em Mateus?

A possibilidade de que “escribas cristãos tenham harmonizado os textos gregos do AT com o uso feito desses textos no NT” (ibid., p. 391) é claramente considerada por Jobes e Silva.

Entre as possíveis tendências cristãs agrupadas por Robert A. Kraft e citadas por Jobes e Silva, está a de “passagens no AT que foram reformuladas para concordar com as citações delas no NT ou com os escritos dos pais cristãos da igreja.” (ibid., p. 392).

Um caso gritante, é o que os escribas fizeram no Salmo 14.3 (13.3 na LXX), onde palavra por palavra de Paulo em Romanos 3.13-18 foram inseridas na Septuaginta, onde a edição de Rahlfs-Hanhart se baseia nos corrompidos Códices Sinaítico e Vaticano (séc. IV), além do Alexandrino (séc. V). Rahlfs-Hanhart colocaram essas palavras entre colchetes, indicando que não fazem parte do texto original.

Os corrompidos Códices Sinaítico e Vaticano (séc. IV) são os mesmos que contém os livros apócrifos (a Septuaginta também) e que omitem milhares de palavras no NT.

Esses e outros exemplos, evidenciam o fato de que alguns copistas da Septuaginta fizeram mudanças no AT com base em citações do mesmo encontradas no NT, e não que os escritores do NT citaram a Septuaginta.

Acréscimos, omissões, alterações e outros problemas são características próprias da Septuaginta.

Apesar dos mitos e incertezas em torno de como, quem e onde foi escrita/produzida, a existência de uma tradução (ou traduções) grega do AT completa nos primeiros séculos da presente era (I, II, III ou IV?) é um fato histórico.

Mas, como já disse, afirmar que Jesus e os Apóstolos citaram a Septuaginta é uma HIPÓTESE repleta de dúvidas, e com diversos problemas. Basta consultar a literatura especializada.

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Referências

JOBES, Karen H.; SILVA, Moisés. Convite à Septuaginta. Vida Nova, 2024.

RAHLFS, Alfred. Septuaginta. Deutsche Bibelgesellschaft/SBB, 2006.

http://solascriptura-tt.org/…/LXX-ProvaFoiCopiadaDoNT…

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